A olho nu, apenas um pedaço de papel. Porém, nas mãos de quem esperou anos pelo seu pedaço de chão, é a conquista de uma vida inteira. Nesta sexta-feira (20), 153 famílias dos assentamentos Indaiá, em Aquidauana, receberam o título definitivo de suas propriedades, além da entrega de 23 Contratos de Concessão de Uso (CCUs).
O evento de entrega foi organizado pela Agraer (Agência de Desenvolvimento Agrário e Extensão Rural) em parceria com o Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) e a Prefeitura Municipal de Aquidauana. Um momento que representa mais do que regularização fundiária: simboliza estabilidade, autonomia produtiva e reconhecimento de uma trajetória construída com trabalho e resistência.
Para quem vive no campo, a terra nunca foi apenas território. É sustento, identidade, herança e futuro.
“É a nossa maioridade na produção” – Moradora do Assentamento Indaiá 1 há dez anos, Katicilene Moreira Albuquerque – conhecida como Kátia – resume o sentimento coletivo como uma vitória construída dia após dia.
“Esse título significa uma grande conquista. É o resultado de uma luta, muito esperado por todos nós. É um incentivo para continuarmos produzindo e levando nossos produtos para a cidade. Representa também a nossa independência financeira. Agora podemos caminhar com as próprias pernas”.
Ela explica que, até aqui, o apoio institucional foi essencial para que as famílias estruturassem a produção. “Recebemos ajuda para dar os primeiros passos. A partir de agora, depende de cada um de nós. Esse título representa nossa maturidade, nossa maioridade na produção”.
No lote onde vive com a família, a diversificação é estratégia e sustento. São produzidos leite, queijo, doces, frango e hortifrúti. Abóbora, maxixe e quiabo estão entre os produtos que saem com mais rapidez para comercialização“. O nosso trabalho é diário. Cada colheita é uma conquista”.
Katicilene também destaca o papel da assistência técnica no desenvolvimento do assentamento. “A Agraer sempre esteve presente desde o início, em cada passo. É um apoio fundamental para que possamos acessar nossos direitos e melhorar a produção.”
Assistência técnica e organização: pilares do desenvolvimento – No Assentamento Indaiá 4, Claudinei Barbosa Medeiros fala com a convicção de quem conhece a trajetória da luta pela terra. Ele reforça que o título é resultado de um processo coletivo que começou muito antes da formalização.
“Desde a conquista da terra, sonhamos com esse momento. O título é o documento que nos dá segurança para dialogar com o banco, com o poder público, com as instituições”.
Para Claudinei, a assistência técnica foi determinante para que o assentamento se estruturasse economicamente. “Sem assistência técnica o assentamento não se desenvolve. Desde o início tivemos acompanhamento, projetos para acesso ao crédito, ao PAA, ao PNAE. Isso fez toda a diferença”.
Ele e a companheira investiram na produção ao longo dos anos e hoje colhem os resultados. “Tudo o que conquistamos foi fruto da luta e dos projetos institucionais. Conseguimos melhorar nossa estrutura, investir, avançar”.
No lote, a prioridade é clara: produzir alimento. Mandioca, frutas para a merenda escolar, abacaxi – reconhecido como um dos melhores da região – e outros itens abastecem programas institucionais no município de Aquidauana e no Estado.
“A nossa tarefa é produzir comida. Se não produzirmos alimento, não haverá futuro. Seja leite, carne, abóbora ou fruta, é isso que sustenta a cidade e fortalece o campo”.
Ele reforça que o desenvolvimento do assentamento passa também pela organização social. “Não basta ter assistência técnica. É preciso organização para planejar a produção e fortalecer a agricultura familiar”.
“É como a casa própria” – No Assentamento Indaiá 3, Lilian Fernanda Longo Frone descreve o momento com emoção.
“É tudo para nós. Desde 2009 esperamos por isso. É como conquistar a casa própria. É segurança, estabilidade. Era o sonho de cada morador aqui do Indaiá”.
Segundo ela, o título não muda a disposição para o trabalho – que sempre existiu – mas renova o ânimo. “Nós sempre trabalhamos, mesmo sem o documento. Mas agora parece que dá um novo fôlego, uma nova motivação”.
Lilian também reconhece o apoio recebido ao longo dos anos. “Sempre fomos bem assistidos. A Agraer esteve presente em todo o processo”.
Atualmente, ela mantém plantação de mandioca, goiaba e limão, com fornecimento para o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA). Para este ano, a aposta é ampliar a produção com tomate cereja.
Um documento que consolida trajetórias – A entrega dos 153 títulos definitivos e dos 23 CCU´s marca um avanço importante na consolidação dos assentamentos Indaiá. Mais do que garantir segurança jurídica, o documento fortalece o acesso ao crédito, amplia oportunidades de investimento e consolida a autonomia das famílias.
Mas, como lembram os próprios assentados, o papel não nasce sozinho.
Ele é resultado de anos de organização, assistência técnica, políticas públicas, produção contínua e da decisão coletiva de transformar terra em alimento.
No Indaiá, cada lote conta uma história. Agora, cada história também tem escritura.
E, para quem passou anos cultivando sem a garantia formal, segurar o título definitivo não é apenas receber um documento – é reconhecer que a luta floresceu.
Estiveram presentes no evento o prefeito Mauro do Atlântico, deputado estadual Zeca do PT, deputada estadual Gleice Jane, presidente da Câmara Everton Romero, Superintendente do Incra Paulo Roberto da Silva, Superintendente do MDA Marina Nunes, Secretário de Agricultura de Aquidauana Cipriano Mendes, representando do Governo do Estado Araquem Midon, presidentes de associações, vereadores e demais autoridades locais.
A Agraer, órgão vinculado à Semadesc (Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação) está presente em todos os municípios de Mato Grosso do Sul. Ela segue ao lado de quem faz o campo acontecer. A instituição mantém o compromisso de fortalecer práticas sustentáveis, unindo conhecimento, tecnologia e tradição para que cada propriedade avance com equilíbrio e rentabilidade.
Texto: Néia Maceno e Ricardo Campos Jr., Agraer
Fotos: Néia Maceno, Agraer

























