Publicado em 25 mar 2026 • por Alcineia Santos Maceno da Silva •
Sob o céu amplo de Laguna Carapã, onde o verde se estende entre lavouras e fragmentos de mata nativa, a erva-mate voltou a ocupar o centro da conversa – não apenas como cultura agrícola, mas como símbolo de identidade, memória e possibilidade.
O segundo Dia de Campo sobre cultivo de erva-mate, organizado pelo escritório local da Agraer, reuniu produtores, pesquisadores e técnicos em torno de um objetivo comum: compreender o presente da cultura e projetar caminhos para o seu futuro em Mato Grosso do Sul. Mais do que um encontro técnico, o evento revelou histórias que atravessam gerações e reafirmam o vínculo profundo entre a erva-mate e a agricultura familiar.
Na propriedade que sediou o encontro, esse vínculo ganha forma concreta. “Eu, no caso, nós estamos aqui na terceira geração… era do meu avô, aí tá com meu pai, passou pro meu pai, e hoje eu que tô seguindo essa tradição”, contou o produtor Luciano Espindola.
Em sua fala, há mais do que relato: há compromisso. “Se cada um fizer a sua parte, a gente não deixa acabar por aí”.
Essa permanência, no entanto, convive com um contraste histórico. Houve um tempo em que Mato Grosso do Sul era protagonista nacional na produção de erva-mate, especialmente durante o ciclo da Companhia Mate Laranjeira, quando o produto era conhecido como “ouro verde”. Hoje, o estado compra mais de 90% da erva-mate que consome de outras regiões do país – um reflexo direto das mudanças econômicas que favoreceram as commodities nas grandes propriedades, tornando a cultura pouco competitiva nesse modelo.
É justamente nesse cenário que a Agraer aposta em outro caminho. Para a instituição, é na agricultura familiar que reside a possibilidade concreta de retomada desse protagonismo.
“Nós estamos aqui no segundo dia de campo da erva-mate de Laguna Carapã, que é a continuidade do programa de incentivo à produção de erva-mate no Mato Grosso do Sul”, explicou o coordenador regional da Agraer em Dourados, Atílio Piolli. Segundo ele, o programa teve início em 2013, com a doação de mudas e equipamentos de irrigação, e desde então vem estruturando uma base técnica e produtiva para fortalecer a cultura.
“Esse dia de campo é justamente para acompanhar o desenvolvimento dessas mudas e da produção aqui na região… e também discutir novas formas de manejo e aumentar a rentabilidade da cultura e do produtor”.
A estratégia passa por valorizar aquilo que já existe: uma produção muitas vezes caseira, artesanal, sustentada por conhecimento acumulado ao longo de gerações – e que agora se conecta à pesquisa científica.
Durante o evento, a pesquisadora Ariadne Barbosa destacou a importância da origem das mudas e da adaptação ao ambiente local. “Tem que sempre se atentar em escolher uma boa matriz… plantas saudáveis, com boa produção de folhas e adaptadas ao nosso clima.
Mudas que vêm de fora não têm essa característica”, explicou. Para ela, o potencial de crescimento é real: “Com planejamento e produção de mudas em larga escala, a gente consegue dominar esse mercado da erva-mate e fazer o nosso chá brasileiro se expandir mundo afora”.
O pesquisador Felipe das Neves Monteiro reforçou a necessidade de integrar tradição e inovação. “Os produtores têm muita experiência prática, é um conhecimento passado de geração em geração. Mas hoje temos avanços em manejo de adubação, poda, formação e arquitetura da planta que podem aumentar a produtividade”, afirmou.
Segundo ele, o objetivo do dia de campo é justamente aproximar esses saberes: “Incentivar a adoção dessas tecnologias para melhorar os ervais que já existem – ervais nativos que fazem parte da história do estado”.
Em Laguna Carapã, onde a erva-mate integra até mesmo o hino do município, o encontro foi mais do que uma agenda técnica. Foi um sinal de movimento.
Entre raízes profundas e novas possibilidades, a erva-mate volta a ser vista não apenas como herança, mas como oportunidade. E, nas mãos da agricultura familiar, o antigo “ouro verde” encontra um caminho possível para, mais uma vez, ganhar valor – desta vez, sustentado por conhecimento, organização e permanência no campo.
Texto e fotos: Ricardo Campos Jr.,Agraer








